BASE-FUT: Trabalho digno e sindicalismo autónomo!

A Comissão para os Assuntos do Trabalho (CAT) vai apresentar um documento de orientação sindical ao Congresso Nacional da BASE-FUT a realizar em Coimbra a 16/17 de Junho de 2012.Publicamos aqui o texto base que será apresentado:

1. Portugal está a atravessar uma situação económica e social difícil afetando em especial os desempregados e trabalhadores de baixos salários e os pensionistas mais pobres. A crise internacional provocada pelo sistema financeiro foi aproveitada na União Europeia e em Portugal para procederem alterações profundas no modelo económico e social, em particular nas relações laborais que, apesar das diferenças de país para país, constituía uma das traves mestras do modelo social europeu. Este modelo, no contexto de uma economia de mercado, tem como elementos essenciais a negociação da contratação coletiva, a participação dos trabalhadores no poder da empresa e da sociedade, o trabalho em condições de segurança e saúde, horários compatíveis com a vida familiar e social do trabalhador, proteção no desemprego, na doença e na velhice e remunerações mais adequadas ao custo de vida incluindo férias pagas, subsídio de natal ou participação nos lucros.

Esta crise internacional e as políticas aplicadas no país e na Europa potenciaram alguns dos problemas específicos de Portugal, nomeadamente a transformação do seu modelo económico de baixos salários mas também outros problemas como dumpimg social e deslocalizações de empresas, fuga para paraísos fiscais, pelo que a sua situação periférica está muito exposta á competitividade de alguns países emergentes.

DESEMPREGO E PRECARIEDADE!

Neste contexto Portugal é altamente afetado por problemas como o desemprego, um dos maiores da EU, e em especial pelo desemprego jovem qualificado; pela baixa formação dos trabalhadores ativos e patrões, por salários baixos, pela dívida pública e gestão orçamental.

Ao nível das relações laborais aumenta a precariedade dos trabalhadores, o poder desmedido patronal e gestional, o trabalho sem horário e clandestino. Este tipo de trabalho e o assédio moral estão em crescimento nas empresas portuguesas a partir de 2008.

Por outro lado, com as políticas de austeridade impostas pelo FMI,BCE e CE existe o perigo da implosão do serviço nacional de saúde, degradação dos sistemas de proteção social e o empobrecimento generalizado da sociedade com o aprofundar da desigualdade entre uma maioria pobre e uma minoria escandalosamente rica.

2.A esta situação difícil o movimento sindical e social europeu vem respondendo de modo pouco articulado, país por país e sem armas novas para responder a desafios novos. A Confederação Europeia de Sindicatos não funciona como uma verdadeira confederação sindical unida mas antes como uma plataforma mínima de pressão. As visões nacionalistas impõem-se no seu seio, a falta de autonomia sindical de algumas organizações é visível, bem como o compromisso com as teses neo-liberais. A CES tarda a dar uma resposta sindical capaz perante estas políticas implementadas na União Europeia que visam a curto prazo a destruição do Estado Social.

3.Por sua vez o movimento sindical português continua dividido e incapaz de gizar a unidade indispensável na ação para enfrentar a maior ofensiva contra os trabalhadores desde que vivemos em democracia. Estando incapaz de ultrapassar as divisões existentes nas famílias políticas, o movimento sindical e social tem dado, no entanto, alguns passos para ultrapassar essa divisão. Greves gerais em conjunto, articulação com os movimentos de trabalhadores precários, gestão de conflitos no interior das confederações. Todavia, são precisos mais passos. Perante o desemprego galopante a ameaça e o medo em muitos locais de trabalho os trabalhadores receiam pelo futuro e precisam de organizações credíveis fortes e eficazes. É tempo de se dar um salto qualitativo na unidade sob pena de não respondermos á situação. A arrogância dos grupos económicos em Portugal já quase não tem limites! O movimento sindical e social português terá que se afirmar mais. Alargar a sua ação, nomeadamente aos desempregados e jovens, rever o seu discurso e autonomizar-se face aos partidos e ao poder político!

4.Hoje o sindicalismo nas grandes empresas precisa de ser mais atuante. Temos outro tipo de empresas e trabalhadores com outros níveis de escolaridade e preocupações culturais, menos afetos ao discurso político partidário, valorizando o consumo e a autonomia no trabalho. O sindicalismo tem que ouvir estas novas gerações e evitar impingir-lhes um discurso, um modelo existente mas procurar conquistá-los. Os jovens trabalhadores precários, organizados em movimentos próprios ou não, devem ter acolhimento e serem integrados no movimento sindical.

VALORES E OBJETIVOS A DEFENDER!

5.A BASE-FUT é herdeira e construtora do sindicalismo de base e autónomo, com raízes no sindicalismo cristão progressista. Ela representa em Portugal uma corrente sindical sem ligações partidárias, lutando sempre pela unidade dos trabalhadores portugueses e pelo consenso entre as diversas correntes na defesa dos seus interesses e direitos. Nesta estratégia privilegiou e privilegia a ação na CGTP-IN onde defende, com outras correntes sindicais, um conjunto de valores e objetivos fundamentais para os trabalhadores, com destaque para:

a).Um sindicalismo de base, ativo nos locais de trabalho, e autónomo de qualquer poder ou corrente política; Um sindicalismo reivindicativo e participativo; um sindicalismo que elabore e aplique as suas próprias estratégias político-sindicais.

b).A unidade na ação de todas as organizações de trabalhadores, bem como a procura constante de caminhos para se encontrarem plataformas de unidade na diversidade sindical e política; A procura de equilíbrios na CGTP-IN de modo a que nenhuma corrente seja hegemónica e coloque em risco os direitos e afirmação das outras correntes; o desenvolvimento de práticas de abertura á sociedade portuguesa de modo a que a CGTP-IN alargue a sua base de apoio social e político; repensar a atual organização sindical, mais participativa.

c).Em Portugal a busca constante de convergências entre as centrais UGT e CGTP-IN e, na Europa, a procura constante de alargar a CES a todas as organizações democráticas de trabalhadores, transformando-a numa verdadeira central sindical Europeia;

d).A nível mundial o apoio à Confederação Sindical Internacional (CSI) que tarda em afirmar-se como a grande dinamizadora das lutas mundiais dos trabalhadores. Em Portugal o apoio a um maior empenhamento da CGTP-IN nesta Central mundial tendo como objetivo final a adesão de todo o movimento sindical português ao sindicalismo mundial contribuindo para a unidade e evitando assim o seu isolamento internacional.

e).A promoção do trabalho digno como objetivo político-sindical essencial no quadro europeu e nacional. A luta pelo trabalho digno no atual contexto significa combater por melhores salários, trabalhar em condições de segurança e saúde física e psíquica, menos horas de trabalho, mais tempo para a vida familiar e social, formação e direitos sindicais, nomeadamente participação na vida da empresa e nos seus resultados.

LINHAS DE AÇÃO

6.Que ação deve a BASE-FUT desenvolver para promover estes objetivos? Tendo em conta os recursos limitados e a natureza militante e voluntária da nossa organização consideramos necessário investir fundamentalmente na formação e animação sindical, na reflexão e na valorização das boas práticas. A BASE-FUT deve funcionar como um laboratório social, sendo espaço de livre debate, sem constrangimentos de qualquer ordem. É uma das vantagens das pequenas organizações. Aqui os militantes não buscam poder, carreira ou prestigio. Apenas têm trabalho, formação e experiencia social e política que podem ser muito gratificantes em termos pessoais e muito úteis para o movimento social. Neste sentido a BASE-FUT deve, através da sua Comissão para os Assuntos do Trabalho (CAT), desenvolver as seguintes linhas de ação:

a) Promover e melhorar a formação sobre os direitos dos trabalhadores portugueses e europeus. Este trabalho deve ser realizado, sempre que possível, em parceria com outras organizações de trabalhadores nacionais e europeus. Esta formação deve ser reorganizada no âmbito do CFTL. Como parceiros nacionais privilegiamos os movimentos de trabalhadores católicos (LOC/MTC,JOC),associações cívicas e movimentos de desenvolvimento local, sindicatos independentes e da CGTP-IN e, a nível internacional, as organizações do EZA, e outras organizações do espaço da ex – CMT e da CSI.

b) Desenvolver o projeto de animação/debate sobre o trabalho digno a nível nacional com encontros regionais e em articulação com parceiros europeus;

c) Criar uma Folha/newsletter eletrónica para informar a rede da BASE-FUT e outros trabalhadores sobre matérias de atualidade;

d) Reforçar e alargar a Comissão para os Assuntos do Trabalho (CAT) criando núcleos regionais.

e) Apoiar e acompanhar os ativistas sindicais da BASE-FUT e todos os trabalhadores que solicitarem apoio para a sua ação nas empresas.

Levando a cabo estes objetivos a BASE-FUT contribuirá para a melhoria das condições de vida e de trabalho dos portugueses, será um espaço de liberdade e de cultura, um instrumento vivo de transformação social e de aprofundamento da democracia.









AINDA OS VENTOS DE MUDANÇA!...



Ainda sobre o debate «Ventos de mudança em Portugal e na Europa»-Covilhã.
Este foi o tema central do Encontro – debate que teve lugar no Seminário do Tortosendo, no dia 19 de Maio último, onde os participantes debateram e identificaram sinais e processos de mudança que anunciam um outro caminho capaz de contrariar a imposição dos grandes interesses financeiro insaciáveis e especulativos sobre a vida dos povos e a economia dos países.

Perante as políticas de violenta austeridade que estão a conduzir ao empobrecimento das populaçõe (ao mesmo tempo que mantêm e favorecem grandes privilégios) e ameaçam destruir o projecto europeu, os três animadores convidados debateram com os participantes sobre os sinais e vento de mudança que se agitam.
Um novo discurso político que ganha expressão em resultado das eleições presidenciais francesas. As vozes que de diversos quadrantes políticos se levantam a afirmar que este caminho de austeridade pode levar à destruição do projecto europeu. As notícias que chegam das eleições regionais na Alemanha num sinal de contestação às políticas da chanceler alemã. E o implosivo resultado das próximas eleições na Grécia – são alguns desses sinais de mudança.

Num outro sentido, falou-se dos movimentos de cidadãos que, nomeadamente em França, se mobilizam para trazer ao debate um novo paradigma do sistema económico que respeite o Planeta ameaçado do lado dos recursos não renováveis e do lado do impacto ambiental. A Iniciativa da Auditoria Cidadã à dívida pública em Portugal, protagonizada por cidadãos do Movimento Democracia Participativa e a recolher crescentes apoios – são outros sinais a encorajar a cidadania e a reforçar o papel das organizações de cidadãos.

Os participantes no Encontro e as organizações promotoras anunciaram a realização de outros debates sobre a evolução política e social no nosso país, sobre as agressões ao mundo laboral e aos direitos dos trabalhadores, desempregados ou não, cujas consequências – no entender dos organizadores do Encontro – estão a tornar num inferno a vida de tantas centenas de milhares de jovens e adultos e de tantas famílias e a aprisionar a economia do país.

António Cardoso Ferreira, médico e dirigente associativo, António Rodrigues Assunção, professor e historiador, e João Lourenço, sindicalista e dirigente associativo, foram os principais animadores do Encontro, promovido pela LOC/ Movimento de Trabalhadores Cristãos, e as associações: Base – Frente Unitária de Trabalhadores; Grupo Aprender em Festa (Gouveia); e o Movimento da Democracia Participativa.

José Manuel Duarte (Organização)

«FORMAR E AGIR»-nas edições BASE!

Acaba de ser impresso o Caderno “Formar e Agir, Aventura do desenvolvimento um desafio permanente” da chancela das Edições Base. A primeira parte do presente texto sintetiza um conjunto de experiências partilhadas entre trabalhadores, associações sindicais, movimentos culturais da Europa (França, Espanha e Portugal) e da América Latina. A segunda parte é dedicada a vários testemunhos centrada em experiências mais recentes entre militantes da Base, do CFTL e de Culture et Liberté (França).


Trata-se de um projecto financiado, nos anos 1980, pelo Centro de Estudos pelo Desenvolvimento da América Latina (CEDAL), com sede em Paris, França em cooperação com diversos parceiros sociais em França, Espanha e Portugal, que tinha por finalidade a formação de dirigentes e militantes associativos através da partilha e do intercâmbio de experiências.

Ao fim de vários anos de trocas, uma militante latino-americana reuniu diversos documentos que deu origem a este Caderno  e que compila um conjunto de critérios e instrumentos metodológicos enquanto novas formas de formação interactiva “acção-formação-acção”.A tradução para português a reorganização do caderno e atualização com novas experiencias sociais foi um trabalho do José Viera, Avelino Pinto, Fernando Abreu e B.Guedes.

As Edições Base farão brevemente a apresentação pública desta obra, no reatamento de publicações que se pretende lançar sobre diversos temas da actualidade, com centralidade nas práticas das pessoas e novas visões do mundo global.

GOVERNOS NÃO MANDAM!-Diz sindicalista latino-americano

«Hoje não temos governos na Europa» -diz Eduardo Estevez, sindicalista argentino e conhecido dirigente da Ex -Confederação Mundial do Trabalho (CMT) de passagem por Lisboa para participar no Congresso da Federação dos Sindicatos da Função Pública que decorre ontem e hoje nesta cidade.

Eduardo aproveitou a sua estadia em Lisboa para visitar a BASE-FUT com quem mantém forte amizade que remontam aos tempos da Revolução de Abril de 1974.

Este sindicalista considera que não são os governos que mandam mas sim as multinacionais e o capital financeiro. «Uma elite de 1% das pessoas no planeta controla os principais recursos e riquezas e manda sobre os restantes 99% das pessoas!» Afirma Eduardo Estevez - «é necessário que o poder político democrático governe o poder económico!»

Depois de ouvir os companheiros da BASE-FUT, que está a preparar o seu Congresso Nacional, Eduardo lembrou uma frase histórica da América latina e portuguesa: «A Luta continua»!

TRABALHO DIGNO PARA TODOS!

A LOC/MTC – Movimento de Trabalhadores Cristãos - vai realizar de 07 a 10 de junho próximo, no Auditório do Cineteatro Municipal João Mota, em Sesimbra, um Seminário Internacional “Pelo Direito ao Trabalho Digno para Todos; desafios e propostas para combater o desemprego estruturante e apoiar a inclusão dos trabalhadores no trabalho”.

Neste Seminário, que conta com o apoio do EZA – Centro Europeu para os Assuntos dos Trabalhadores e da EU – União Europeia, irão participar, para além de membros da LOC/MTC, movimentos e organizações de trabalhadores de Portugal e de outros países da Europa.

No cenário da atual realidade do trabalho precário e do desemprego massivo e estruturante pretendemos, durante esta atividade, analisar e debater estas realidades na procura de soluções e respostas cívicas, impulsionadoras de uma economia mais solidária e equitativa. Pretendemos, ainda, contribuir para inverter o pensamento mercantilista e produtivista sobre as reformas laborais, reafirmando, veementemente, que é pelo trabalho humano, que respeita os direitos dos trabalhadores e a sua dignidade, que edificamos um mundo novo mais justo, solidário e inclusivo.
A BASE-FUT vai participar neste Seminário com uma delegação de dois militantes! Ver programa

PAPEL DOS SINDICATOS E MOVIMENTOS DOS CIDADÃOS

Joao Lourenço, sindicalista da BASE-FUT foi um dos animadores do debate efetuado na Covilhã, em 19 e 20 de Maio organizado em parceria por várias associações e sob o tema a «crise atual e os ventos de mudança». Agora apresenta mais alguns contributos para continuar a reflexão e o aprofundamento.

Joao Lourenço, que foi membro da Comissão Executiva da CGTP até ao último Congresso, teve a responsabilidade naquela Central pelo Departamento do Desenvolvimento Sustentável, Defesa dos Consumidores e Economia Social!


Vivemos um tempo de grandes transições e desafios que estão a moldar a vida de todos os cidadãos. A globalização está a tornar-se controversa e acarreta consigo fortes consequências no aumento da pobreza e no desemprego. Para com o nosso planeta está a trazer profundas transformações colocando em causa a sustentabilidade ambiental.
Iniciamos deixando algumas perguntas. Como vamos de desenvolvimento humano? Que práticas sociais estão a ser implementadas? Para que futuro estamos a caminhar e o que nele queremos construir? Penso que fundamentalmente são estes alguns dos maiores desafios para a presente crise social e económica.

Para compreendermos melhor, hoje há um novo capitalismo que é mais agressivo e poderoso. Desenvolve-se dentro do contexto da globalização, impõe tendências ideológicas de forma disfarçada e afirma-se como sendo a única alternativa. O seu modelo desenvolve-se principalmente a partir das transnacionais e multinacionais, influenciando a economia mundial que domina os governos pela via do seu poder económico.

Face a esta situação os movimentos da sociedade civil procuram responder, principalmente com iniciativas apoiadas principalmente nas ações diretas através ou nas lutas sindicais, manifestações e tomadas de posição ou ainda através dos debates nomeadamente nos Fóruns Sociais Mundiais e Europeus. No entanto muitas outras iniciativas são tomadas por muitas organizações que passam incógnitas como sejam movimentos de carácter ambientais, religiosos e culturais.

SINDICATOS SÃO NECESSÁRIOS!


Os sindicatos têm mantido um trabalho de defesa e protecção dos trabalhadores lutando por salários mais justos, direitos e garantias e dignidade para todos. Mas perante o quadro de crise alguns detractores afirmam que os sindicatos estão ultrapassados e caducos, razão pelo que dizem que deixaram de ser necessários. Ou então querem reservar-lhes um único espaço que é o de ajudarem á implementação das reformas anti-sociais junto dos trabalhadores. Dizem que os sindicatos não interessam porque temos liberdade e que isso é o suficiente. Mas o que oferecem é uma liberdade altamente condicionada á fraqueza natural do trabalhador cuja dependência o sujeita ao isolamento e a ter uma aceitação conformista. Essa condição de falsa liberdade ainda é condicionada através do dumping social exercida por outros trabalhadores sobretudo emigrantes e precários. Noutros casos é através de ameaças da retirada de prémios ou de outros direitos sociais facultativos e por fim vem a ameaça do despedimento.

Outro chavão, o da “competitividade”, que nos afronta e é cada vez mais necessário ser desmontado porque está a ser usado para reduzir salários, liberalizar as leis do trabalho e torná-las mais flexíveis. Todos sabemos que não é com estas medidas que um país se torna mais competitivo mas antes passa essencialmente por opções políticas e estratégicas, pelo combate ao dumping das deslocalizações de empresas, pelo fomento e pela melhoria da organização empresarial, da inovação, da formação e do conhecimento.

TEMPO DE TRABALHO É FUNDAMENTAL!

O tempo do trabalho é uma causa fundamental porque é o principal recurso que todos temos e que não é repetível. O seu uso por nós ou por terceiros tem um valor que não podemos deixar ao arbítrio nem ser desprezado. Ele é tão valioso e não se mede só em dinheiro é a nossa própria vida. O empresário em troca do nosso tempo vende-o em dinheiro ou em produtos calculando minuciosamente, pois para a empresa o tempo é muito valioso. E então para o trabalhador? Quando se trata dele já não se trata de coisa tão valiosa? Pode ser facilmente flexibilizado como se não houvesse mais vida para além do trabalho?
Como vimos é necessário dotar os cidadãos com mais informação e conhecimento, com mais instrumentos de análise e até de interpretação dos acontecimentos socioeconómicos. Que pensar, por exemplo dos despedimentos, muitos são motivados pelo dumping social, e pelos mercados desregulados mais apetecíveis onde as empresas se instalam deixando para trás a fome a miséria?

SUSTENTABILIDADE E AMBIENTE!

A cidadania participativa e activa tem um papel muito importante na mobilização e na tomada da consciência das pessoas assim como no acompanhamento das implicações do sistema socioeconómico e social, a que urge dar mais destaque e importância. Para além da mobilização necessária das pessoas deve haver uma estratégia para a erradicação da pobreza e para a defesa do meio ambiente. Ter iniciativa de luta e defesa dos valores contidos e desenvolvidos dentro dos próprios movimentos sobretudo naqueles que nos dizem mais respeito e á Europa.

Hoje, 20 anos após a 1ª. Cimeira da Terra a pobreza aumentou em termos absolutos. Metade dos trabalhadores do mundo vive na precariedade. O desemprego atinge níveis recordeAs emissões nocivas com efeito de estufa preocupa-nos e assim como a escassez de recursos não renováveis. A biodiversidade está preocupantemente comprometida.

Face a isto a sociedade civil organizada, deverá ter uma intervenção ainda mais benéfica e integrar na sua principal acção estratégias amplas de combate ás causas do empobrecimento e unir-se convergindo com outras organizações que trabalham em áreas tão importantes como a defesa do meio ambiente e da inclusão social.
Estamos em véspera da Cimeira do Rio+20, é altura de reivindicar dos poderes.A criação de um patamar comum de proteção social universal enquadrado pela OIT.

Uma taxa sobre transações financeiras. Um objetivo de pelo menos 50% de mais empregos verdes e dignos até 2015.Reforço e apoio ao Programa das Nações Unidas para a criação de um conselho de alto nível para o desenvolvimento sustentável e do progresso humano.Também na Europa temos que reivindicar a sua estratégia do desenvolvimento sustentável.

Abolir medidas injustas de austeridade, que não criarão emprego nem competências nem um futuro económico sustentável e humano que é vital para todos nós.

Reforçar o modelo social europeu e a dimensão do emprego.Promover a solidariedade e a segurança económica.Reconhecer a importância do diálogo social e da sua verdadeira negociação coletiva para uma coesão social efetiva.

A complexidade com que se desenvolve a economia dá um espaço que deve ser aproveitado para o fortalecimento da economia social e solidária que em muitos casos preenche as necessidades básicas e o acesso a direitos onde o mercado não vai por não ser rentável. Sabemos que há iniciativas altruístas de voluntariado que prestam ajudas sem qualquer outro interesse que não o de fazer bem. Por exemplo no desenvolvimento local comunitário, na valorização recursos naturais e do património e pelo proporcionar acesso ao bem estar de todos os habitantes.

Com uma maior divulgação e conhecimento das muitas experiências do que se fazem cá e em muitos outros países certamente que se despertaria novas potencialidades para a dinamização e empenho e dedicação às causas defendidas pela sociedade civil. A condição humana está sempre presente na centralidade do trabalho fator da realização pessoal de cada um face aos desafios que o envolvem.

PARTICIPAÇÃO ATIVA!

Finalmente a cidadania é a qualidade em que o cidadão participa e imprime durante a sua passagem pela vida em colectivo é também o futuro que partilha com e pelos outros e em que é solidário e beneficiário ao mesmo tempo. É de direito ser cidadão para na sua condição poder contribuir e exercer a sua plena cidadania política.

A cidadania na Europa, passa pela participação dos cidadãos através das suas organizações estarem presentes na vida económica, legislativa, sociais, culturais e ambientais. E isto passa pelo aprofundamento da democracia para que todos possam estar informados e exercer a cidadania, designadamente através da irradicação da pobreza e da exclusão social.

O futuro do planeta , o maior desafio para todos, passa pela sua sustentabilidade de hoje e de amanhã. Estamos a viver uma fase difícil porque a vivemos em crise mas isso não deve esquecer as preocupações ecológicas nem a qualidade ambiental e material das gerações vindouras que dependem do que fizermos por elas agora. Assim o desafio está em viver hoje evitando delapidar demasiado os bens não renováveis e isso impõe contenção no consumo, produzindo bens e equipamentos duráveis e úteis. Controlar as emissões de oxido de carbono, os gastos de água potável sem poluí-la, respeitar a pegada ecológica sempre que possível. Este é um papel que os governos ainda pouco fazem. A sociedade civil tem um papel insubstituível.

É preciso reconhecer o papel de cada organização no contexto da Europa. O valor de cada uma sem desprezo pelo que ela faz, é sempre muito importante independente do seu tamanho, seja ela sindicato ONG ou simples associação de consumidores ou de automobilistas ou ainda da economia social, cooperativa etc. O trabalho de todas as organizações é sempre relevante para a promoção da cidadania actuante e democrática, verdadeira alternativa para uma resposta á presente crise e á construção de um novo futuro.








CONGRESSO DA BASE-FUT-Devolver a esperança...



«O XV Congresso Nacional da BASE – FRENTE UNITÁRIA DE TRABALHADORES, vai realizar-se num momento particularmente difícil para os trabalhadores e para os cidadãos em geral» -diz Joao Paulo Branco Coordenador Nacional desta Organização criada na Costa de Caparica em Novembro de 1974, num plenário de mais de uma centena de trabalhadores, na sua maioria oriundos dos movimentos de trabalhadores cristãos que lutaram contra a ditadura pela democracia!
«O nosso país encontra-se num momento de grande dificuldade e de grandes alterações políticas e sociais. A chegada ao poder da direita deu-se no pior momento para os trabalhadores e, coincidentemente, no melhor momento para os neoliberais que dominam o atual governo-acrescenta o Coordenador da BASE - FUT que explica melhor a sua ideia:

«Sim, neo- liberais, porque as politicas que aplicam e defendem tão empenhadamente nada têm de social-democracia ou de democracia cristã. Politicas onde as pessoas são sistematicamente deixadas para último lugar, onde a dignidade dos trabalhadores, dos mais idosos e os sonhos dos jovens são todos os dias postos em causa. São políticas claras de um neo-liberalismo desenfreado, que em certos momentos parecem querer acertar contas com a história mais recente do nosso povo.

No último ano, temos sido bombardeados com discursos que insistem em fazer-nos querer que somos os culpados por toda esta situação, que somos os responsáveis pela crise, porque fomos irresponsáveis e vivemos “acima das nossas possibilidades”.

TRABALHADORES NÃO SÃO OS RESPONSÁVEIS PELA CRISE!

Há anos coordenando uma organização de militantes sociais, a BASE-FUT, com vastas relações internacionais, e simultaneamente empregado numa multinacional do ramo automóvel, João Paulo considera que esta crise é injusta para os trabalhadores e afeta em especial o nosso país e a Europa:

«Estas acusações não são apenas uma tremenda injustiça, como são tremendamente falsas pois se houve alguém que não foi responsável por esta crise foram os trabalhadores, os reformados e os jovens.»
Se esta crise tem responsáveis-diz-nos João Paulo- eles podem ser facilmente identificados. Foram aqueles que sistematicamente insistiram em viver da especulação financeira, que sistematicamente nos tentavam convencer de que não precisávamos do Estado, que os mercados se auto regulavam, que o futuro das nossas sociedades passava somente pela iniciativa privada, pois tudo o que era público era mau e despesista» e acrescenta ainda João Paulo:

«Convém também dizer que esta crise não é uma crise de Portugal, mas sim uma crise da Europa e do mundo. E neste cenário, Portugal sendo um país periférico e pequeno, tem vindo a sofrer de uma maneira muito intensa esta crise, não porque fomos maus alunos e despesistas como alguns querem fazer querer, mas sobretudo, porque tal como agora nos mandam ser austeros, noutros momentos ainda do passado recente disseram-nos que devíamos consumir.»

FORTE CRISE DE SOLIDARIEDADE NA EUROPA!

Na opinião de João Paulo a crise da Europa é sobretudo uma crise de solidariedade e, em particular, com os pequenos países:

«A esta Europa faltou, neste momento de crise, um dos seus pilares principais: a solidariedade. Também a justiça tem estado alheada da Europa, pois não é justo que, enquanto alguns, os poderosos, não cumpriram com os limites de deficit não resultando daí qualquer problema, agora, que são sobretudo os mais pequenos a fazê-lo, é muito grave e devem até ser sancionados - esta não é a Europa do Tratado de Roma.»

Concluindo a sua reflexão, João Paulo apela a uma maior participação social e política dos cidadãos:
«O objetivo desta reflexão não é uma análise política da situação, mas sim dizer-vos que, perante este cenário de tamanhas injustiças e de grotescos ataques ao estado social e ao estado de bem-estar, é necessário, mais uma vez, sairmos do nosso “conforto” e participarmos activamente na sociedade civil. Só através de uma participação activa e contínua poderemos garantir que o presente não se torne em passado.
Actualmente muitos dizem que isso de direitos adquiridos é algo que não existe, que era uma falsa assunção. No entanto, creio que a melhor maneira de preservar os nossos direitos é nunca permitir que os mesmos sejam postos em causa e isso só é possível através de uma cidadania activa e forte, de uma participação cívica responsável.»


AUMENTAR A PARTICIPAÇÃO CÍVICA!

Para o Coordenador Nacional o Congresso da BASE-FUT inscreve-se no quadro desta necessária participação cívica:

«O nosso Congresso vai ter lugar num momento particularmente difícil, mas também é verdade que temos a oportunidade de realizar um Congresso num momento em que a nossa sociedade, e em particular a sociedade civil, mais precisa de momentos de reflexão e aprofundamento sobre a sociedade moderna, sobre a valência das nossas democracias.
Neste contexto, será então importante que consigamos que o Congresso da BASE-F.U.T seja um momento de enaltecimento da democracia participativa e da defesa dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos, um momento de devolução da esperança que tanto insistem em roubar-nos, um momento de transformação do presente para podermos refazer um futuro melhor.»