SINDICALISMO: crise e futuro!





No dia 10 de junho, pelas 15 horas, as «Edições Base» apresentam na Feira Cultural de Coimbra,no Parque Dr. Manuel Braga daquela cidade, o livro «Pela Dignidade do Trabalho utopias e práticas do trabalho de base».Na ocasião Fernando Abreu, um dos autores do livro  e fundador da BASE-FUT e Hermes Costa, sociólogo e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra debatem  a crise  e futuro do sindicalismo.Pierre Marie, responsável da BASE em Coimbra modera o debate. 0 texto que se segue, da autoria de Fernando Abreu, serve de enquadramento a esta iniciativa cultural!
I – O LIVRO “PELA DIGNIDADE DO TRABALHO”
O Encontro que propomos realizar não tem por finalidade principal a apresentação do livro “PELA DIGNIDADE DO TRABALHO – Utopias e Práticas do Trabalho de Base. Será, no entanto, o gerador do diálogo sobre a crise e o futuro do sindicalismo. Editado pela BASE-Frente Unitária de Trabalhadores, o livro é a Memória da ação desenvolvida pelo Movimento na clandestinidade e em Liberdade.
O Movimento BASE, fundado por dirigentes e ex-dirigentes dos Movimentos Operários Cristãos, mobilizou e organizou militantes e simpatizantes da Juventude Operária Católica, da Liga Operária Católica e Animadores do Centro de Cultura Operária (alguns dos quais, felizmente, estão entre nós).
Constituído com o objetivo de lutar pela emancipação dos trabalhadores e pelo fim do regime fascista, o Movimento BASE aglutinou na sua ação trabalhadores de diferentes opções religiosas e políticas, tendo promovido uma significativa formação e consciencialização com expressão no campo cultural, social e político.
Dada a sua opção de classe, os fundadores, desde o início, assumiram como prioritária a ação sindical, a qual, permita-se a citação:
 Como podemos constatar pelos registos que este livro nos traz – e no meu caso também pela observação direta enquanto dirigente sindical  com funções de direção na Intersindical/CGTP IN desde a criação da Comissão Organizadora do  Congresso de Todos os Sindicatos-, as posições dos sindicalistas da Base. F.U.T. alicerçaram-se sempre em conteúdos concretos, com argumentos bem definidos e expostos com perspetiva estratégica. …O apego ao trabalho de base, a participação plena dos trabalhadores na formulação e desenvolvimento da sua organização, constituiu, sem dúvida, marca forte do tipo de sindicalismo corporizado pelos quadros da Base-F.U.T…”. (in. Prefácio de Manuel Carvalho da Silva, ex-Coordenador Nacional da CGTP-IN).
II – A CRISE DO SINDICALISMO
Quando um estudo encomendado pela CGTP-IN ao ISCTE, não há muitos anos, revela que os trabalhadores, indagados sobre a quem confiariam a defesa dos seus interesses, colocaram os sindicatos em terceiro lugar, atrás das Associações de Classe e das Comissões de Trabalhadores, e calculando-se que entre 1975 e 1995 a taxa de sindicalização baixou de 59 para 20 por cento, há que olhar frontalmente a realidade.
Nos anos 70 do século passado a sindicalização e o poder reivindicativo dos sindicatos aumentou exponencialmente, porém nos anos 80 teve início uma acelerada regressão no número de filiados e na capacidade de mobilização dos trabalhadores.
Para tal  regressão foi decisiva a consagração da ideologia do neo-liberalismo, na base da qual o capitalismo que muitos supunham moribundo se reergueu sem que os sindicatos se apercebessem, atempadamente, das consequências que as novas
ideologias e  estratégia do capital, acompanhadas das inovações tecnológicas, informativas e comunicacionais disponíveis e  introduzidas na indústria e no setor dos serviços implicariam no mercado e na organização do trabalho.
A verdade, é que, admita-se, a crise do sindicalismo, em muitos países europeus, terá sido também motivada pela excessiva acomodação das “élites” sindicais aos resultados obtidos nos  “anos de ouro” do decénio transato.
Independentemente da justeza, ou não, desta análise, a realidade é a de que devido à pulverização sindical existente na maioria dos países, à ausência de orientação ideológica e política consistente, ao desfasamento entre “elites” e bases, e à falta de uma adequada estrutura unificada internacional, os sindicatos não tiveram condições de fazer frente à problemática criada pela “globalização”, tendo-se revelado insuficientes as tentativas e os esforços para reverter alguns dos piores malefícios causados aos trabalhadores.
Um outro fator não menos importante foi certamente o da implementação da terciarização, isto é a criação, a nível internacional e no nosso país, de pequenas unidades de produção e de prestação de serviços, não raras vezes na base do pessoal dispensado por “mútuo acordo” e financiadas pelas empresas, cujo objetivo mais do que reduzir despesas (na maioria dos casos aumentaram) foi o de desorganizar ou acabar com as Comissões de Trabalhadores e a representação sindical.
Tudo conjugado, permitiu ao patronato nacional e internacional e aos seus gestores a mudança drástica, em seu proveito, da regulação do mercado de trabalho e das relações laborais, para o que, não raras vezes, tiveram a cooperação de sindicatos que, sob a capa de evitarem males maiores, lhes conferiam o seu aval.
As situações atrás apontadas, como bem sabemos, geraram em Portugal, por toda a Europa e em outras latitudes do mundo, índices elevados de desemprego, medo de perder o emprego, precaridade, segmentação entre empregados e desempregados, contratados e precários, homens e mulheres, “velhos” e jovens à procura de primeiro emprego. Estas foram as condições ideais criadas pelo triangulo capital/patronato/ governos para impor a desregulamentação do trabalho, disseminar o egoísmo e o individualismo e, deste modo, reduzir a união e a solidariedade entre os trabalhadores essenciais à existência do sindicalismo de classe e de base.
Para a consecução dos objetivos do capital, o patronato e a esmagadora maioria dos governos contaram e contam com a colaboração dos meios de comunicação social na generalidade propriedade de grandes grupos económicos, através dos quais: opinadores, comentadores, economistas, investigadores e pesquisadores convidados (muitos deles bem pagos e com ligações a interesses que deviam ser obrigados a divulgar) veiculam, a ideologia neo-liberal com o que, a coberto da sua pretensa superioridade intelectual, mitigando ou falseando as realidades, estimulam a aceitação passiva das condições desumanas que são impostas aos trabalhadores e ao povo pobre.
Conscientes da missão histórica do sindicalismo na luta pela dignificação do trabalho e a emancipação dos trabalhadores, Que podemos fazer para erradicar o individualismo, mobilizar os apáticos e indiferentes, e reforçar a solidariedade?







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